Recentemente, o monsenhor Battista Ricca, um dos diretores do IOR, o Banco do Vaticano, foi acusado de pertencer ao lobby gay. Como o senhor pretende enfrentar esta questão?

- Sobre monsenhor Ricca, fiz o que o direito canônico manda fazer, que é a investigação prévia. Nessa investigação, não há nada do que o acusam. Não achamos nada. Essa é a minha resposta. Mas eu gostaria de dizer outra coisa sobre isso. Vejo que muitas vezes se buscam os pecados de juventude de quem está na Igreja. Abuso de menores é diferente, não é disso que estou falando. Mas, se uma pessoa, seja laica, padre ou freira, pecou e esconde, o Senhor perdoa. Quando o Senhor perdoa, o Senhor esquece. E isso é importante para a nossa vida. Quando vamos confessar e dizemos que pecamos, o Senhor esquece e nós não temos o direito de não esquecer. Isso é um perigo. O que é importante é uma teologia do pecado. Quantas vezes penso em São Pedro, que cometeu tantos pecados e venerava Cristo. E esse pecador foi transformado em papa. A imprensa tem escrito muita coisa sobre o lobby gay. Eu ainda não vi ninguém com uma carteira de identidade do Vaticano dizendo "sou gay". Dizem que há alguns. Acho que devemos distinguir entre o fato de ser gay e fazer lobby gay. Porque nenhum lobbys é bom. Isso é o que é ruim. Se uma pessoa é gay e procura Deus e tem boa vontade, quem sou eu, por caridade, para julgá-la? O catecismo da Igreja católica explica isso muito bem. Diz que eles não devem ser discriminados, mas integrados à sociedade. O problema não é ter essa tendência. Não! Devemos ser como irmãos. O problema é fazer lobby: o lobby dos avaros, o lobby dos políticos, o lobby dos maçons, tantos lobbys. Esse é o pior problema.

O senhor enfrenta muitas resistências na Cúria? 

- Se há resistência, eu ainda não vi. É verdade que aconteceram muitas coisas. Mas eu preciso dizer: encontrei ajuda, encontrei pessoas leais. 

Na viagem o senhor não falou sobre aborto, nem sobre a posição do Vaticano em relação ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. No Brasil foram aprovadas leis que ampliam os direitos para esses casamentos. Por que o senhor não tratou desses assuntos? 

- A Igreja já se expressou perfeitamente sobre isso. Não era necessário falar sobre esses temas. Eu também não falei sobre roubo, ou sobre a mentira. Em relação ao aborto, a Igreja tem uma doutrina clara. Os jovens sabem perfeitamente qual a posição da Igreja. 
Queria uma fala positiva no Brasil, que abre caminho aos jovens.

Por que o senhor carrega a sua própria mala e o que leva dentro?

- Não tinha a chave da bomba atômica dentro da mala... Eu sempre fiz isso. Quando viajo, levo minhas coisas. Tenho um barbeador, o livro da Liturgia das Horas, uma agenda e um livro para ler. O livro é sobre Santa Terezinha. Sou devoto de Santa Terezinha. Eu sempre carreguei minha maleta. Acho isso absolutamente normal. 

Por que pede tanto para que rezem pelo senhor ? Não é habitual ouvir de um papa que peça que rezem por ele. 

- Sempre pedi isso. Quanto era padre, pedia, mas nem tanto e nem tão frequentemente. Comecei a pedir mais quando passei a ser bispo. Preciso da ajuda do Senhor. Eu, de verdade, me sinto com tantos limites, tantos problemas, e também sou pecador. Peço a Nossa Senhora que reze por mim. É um hábito, mas que vem da necessidade. Eu sinto que devo pedir. 

O senhor tem um calendário definido para o próximo ano? 

- Em outubro devo ir a Assis. Fora da Itália, quero ir a Israel. O governo israelense fez um convite para que eu vá a Jerusalém. O da Palestina também. Tenho ainda um convite para ir a Fátima. 

Às vezes, o senhor se sente aprisionado no Vaticano?

- Eu gostaria de poder andar pelas ruas de Roma. Eu era um padre da rua. Os seguranças do Vaticano têm sido bons comigo. Agora, me deixaram fazer algumas coisas a mais. Mas entendo que não posso andar pelas ruas.

O Brasil esta perdendo muitos fiéis. O senhor acha que o movimento carismático pode ser uma forma de impedir a fuga dos católicos para os pentecostais?

- Exatamente. Conversei ontem com os bispos sobre o problema da evasão de fiéis. Vou lhes contar uma história: nos anos 70 e 80, eu não podia nem ver os representantes do movimento carismático. Certa vez, cheguei a afirmar que eles confundiam celebração litúrgica com escola de samba. Agora, acho que este movimento faz bem para a Igreja. Neste momento da Igreja, acho que são necessários, uma graça do Espírito Santo. E digo mais: não servem apenas para evitar a fuga de fiéis, mas são importantíssimos para a própria Igreja.

Qual sua relação de trabalho com Bento XVI ?

- É como ter um avô em casa, em meio a uma família. Um avô venerado. 

O senhor falou de misericórdia. A Igreja não deveria ter misericórdia com os casais divorciados e que se casam novamente? 

- Um dos temas que deverão ser discutidos na comissão de oito cardeais que criei há alguns meses é como ir adiante na pastoral matrimonial. Esse será um dos assuntos do próximo sínodo. 

O papel das mulheres na Igreja pode mudar?

- A questão da ordenação das mulheres é um assunto de portas fechadas. A Igreja diz não. No entanto, acredito que a mulher deve ter papéis mais importantes na Igreja. Uma Igreja sem as mulheres é como o Colégio Apostólico sem Maria. A mulher ajuda a Igreja a crescer. E pensar que Nossa Senhora é mais importante do que os apóstolos! Até agora, no entanto, não fizemos uma teologia profunda sobre a mulher. Há as mulheres que fazem a leitura, que são presidentes da Cáritas. Mas há mais o que fazer. É necessário fazer uma profunda teologia da mulher. 

O senhor se assustou quando viu o informe do Vatileaks?

- O problema é grande, mas não estou assustado.

Como papa, o senhor ainda pensa como um jesuíta?

- É uma pergunta teológica. Os jesuítas fazem votos de obedecer ao papa. Mas se o papa se torna um jesuíta, talvez deva fazer votos gerais dos jesuítas. Eu me sinto jesuíta na minha espiritualidade, a que tenho no coração. Dentro de três dias vou festejar com os jesuítas Santo Inácio, numa missa. Não mudei de espiritualidade. Sou Francisco franciscano. Sinto-me jesuíta e penso como jesuíta.

Em quatro meses de Pontificado, pode fazer um pequeno balanço e dizer o que foi o pior e o melhor de ser papa? O que mais o surpreendeu nesse período? 

- Não sei como responder a isso, de verdade. Coisas ruins não aconteceram. Coisas belas, sim. Por exemplo, o encontro com os bispos italianos foi lindo. O encontro com os seminaristas foi belíssimo, e também com os alunos do colégio jesuíta. Uma coisa dolorosa foi a visita a Lampedusa. Fez-me chorar, porque penso que os imigrantes, que chegam de barco, são vítimas do sistema socioeconômico mundial. Mas a coisa pior foi uma dor no ciático. Sofri disso no primeiro mês. É verdade! Era dolorosíssimo, não desejo a ninguém.

O senhor deverá canonizar até o fim do ano os papas João 23 e João Paulo II. Qual é a diferença de santidade entre os dois?

- Estamos pensando em adiar a cerimônia de canonização. É difícil para os poloneses irem a Roma nessa época do ano. Faz muito frio.